sábado, 31 de maio de 2014

Engenharia natural: mais economia e sustentabilidade

A preocupação ambiental está cada vez mais presente em diversos setores sociais, incluindo o design industrial e a engenharia, com a crescente substituição de materiais tradicionalmente usados, como aço, por exemplo, pela utilização de materiais naturais, de baixo impacto ambiental, adequando a arquitetura ao clima local. O projeto "Galpão de bambu e lonas têxteis utilizando tecnologias sustentáveis", que recebeu subsídios do programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico, da FAPERJ, reflete essa tendência. À base de bambu, lona têxtil, terra crua e fibras vegetais, foi erguido na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) um galpão adaptável, instalado ali desde setembro de 2013. O trabalho foi desenvolvido numa parceria entre a PUC-Rio e a empresa Bambutec, especializada na engenharia de produtos naturais, ecodesign e bioarquitetura.

Utilizar bambu no lugar do aço tornou-se uma troca inteligente e ecologicamente sustentável. Uma das vantagens dessa substituição é que o bambu tem resistência mecânica comparável ao aço, cada hectare cultivado consome toneladas de gás carbônico (CO2) da atmosfera, além de ser biodegradável. "A plantação de bambu promove a recuperação de áreas desmatadas e contribui para a formação de nichos ecológicos, atraindo espécies de insetos, pássaros e outros animais", explica o designer Mario Seixas, coordenador do projeto e sócio fundador da Bambutec.

Com 23m x 15m de comprimento, 230m2 de vão livre e 330m2 de área coberta, o ecogalpão demorou quatro meses sendo fabricado e cerca de 30 dias para ser montado. "Ele é todo montado no solo, modularmente e em sequência. Em sua construção, empregou-se um novo sistema construtivo que usa treliças espaciais de bambu cobertas com lonas tensionadas. Mesmo dispensando o uso de parafusos ou pregos, é extremamente segura. "Modelamos objetos e equipamentos com encaixes, sistemas tensionados e amarrações, numa estrutura que emprega treliças espaciais em todas as direções. Estudos mecânicos revelaram que o emprego do parafuso diminui a resistência mecânica do bambu, pois interrompe as fibras da planta. Trabalhamos com peças inteiras nesses sistemas modulares autoportantes", explica Seixas. Âncoras de concreto armado presas ao solo evitam o deslocamento da construção por ventos fortes.

Tal como um brinquedo de montar, o ecogalpão é montado no solo e só depois erguido por tração humana. "Torna-se mais simples construir dessa forma. Não é necessário que nenhum operário tenha que ficar trabalhando no alto para finalizar detalhes. Além de reciclável, ele pode ser desmontado, se for necessário e é mais leve do que um galpão normal de madeira ou aço. Pesa ao todo oito toneladas, pelo menos cinco vezes menos do que uma estrutura convencional, e tem duração provável de quinze anos", acrescenta o designer.

Segundo Seixas, uma de suas desvantagens, por sinal, seria sua durabilidade. Para resolver o problema, a planta recebe tratamento especial. O bambu, que é produzido na região serrana e do médio Paraíba, é submetido a um processo de defumação e logo depois à secagem em laboratório durante cerca de seis meses. "Desenvolvemos um tratamento para proteger o material das intempéries e da umidade, em que cada vara de bambu é encapsulada por um tubo de tecido de algodão, pintado com terra crua e cola branca, novamente pintado com uma película produzida à base de polímero de mamona, o que aumenta sua proteção e amplia sua durabilidade", detalha o designer.

De acordo com Seixas, o ecogalpão vem sendo observado para ver como reage ao tempo e ao clima. "O desgaste físico-mecânico, durabilidade, propriedades térmicas e capacidade de adequação vêm sendo avaliados", fala o designer. E acrescenta: "Pelo que observamos até agora, constatamos que se trata de um modelo de construção viável e ecológico."

(FAPERJ)